Palma, Mozambique: A young African girl balances a container of water on her head in Cabo Delgado. By Wirestock / iStock Editorial / Getty Images Plus via Getty Images
Como é que Moçambique se tornou um dos países mais pobres do mundo?
Embora seja amplamente reconhecido que Moçambique é, em termos absolutos, um país pobre, uma classificação recente de pobreza suscitou um amplo debate público. Dado que a pobreza é um conceito estilizado, este blogue procura clarificar as métricas, classificações utilizadas e o que estas realmente nos dizem, destacando os aspetos-chave a considerar na sua interpretação.
A mais recente Actualização Económica de Moçambique, publicada pelo Banco Mundial em março de 2026, classifica Moçambique como o segundo país mais pobre do mundo, estimando que cerca de 81% da população vive na pobreza.
Analisada literalmente, esta métrica indica que mais de quatro em cada cinco pessoas – ou aproximadamente 28 dos cerca de 35 milhões de habitantes de Moçambique – vivem em agregados familiares cujo consumo diário é inferior a 3 dólares americanos em paridade de poder de compra (PPC), expressos em dólares internacionais a preços de 2021. 1
Seriam estas estimativas inconsistentes com a realidade económica de Moçambique?
Analisando outras estatísticas oficiais, o crescimento económico em Moçambique abrandou significativamente na última década, período marcado por uma recessão notável em 2020 devido à pandemia da COVID-19. No entanto, mesmo antes deste período, a economia já vinha abrandando consideravelmente, com o crescimento do PIB e do consumo agregado abaixo de 1% em 2015 e 2017. De facto, as taxas de crescimento destes agregados económicos registaram uma tendência negativa nos últimos 10 anos.
Figura 1: Evolução do PIB e do consumo agregado em Moçambique, de 2005 a 2025
Esta figura mostra as tendências do PIB e do crescimento do consumo agregado em Moçambique nas últimas duas décadas. As linhas de tendência ilustram o abrandamento económico a longo prazo que poderia explicar o aumento das taxas de pobreza. Cálculos dos autores com base em dados do Instituto Nacional de Estatística (INE).
Estes factores, combinados com múltiplos choques climáticos e instabilidade militar, tornam a taxa de 81% plausível. Embora choques como a pandemia tenham sido globais, a maioria das adversidades (como ciclones e conflitos) afectou particularmente a economia moçambicana. Conjugando esta sucessão de crises à capacidade limitada de resposta do Estado, é possível que um número considerável de moçambicanos, especialmente aqueles que já se encontravam próximos à linha de pobreza, tenha sido empurrado para baixo da linha.
É importante notar que Moçambique ocupou o quinto lugar entre os países mais pobres do mundo, em 2025, segundo o PIB per capita. Portanto, há evidências suficientes para não descartar a possibilidade de que o país se encontre entre os mais pobres do mundo.
Como Moçambique se compara a outros países?
É importante ressaltar que a expressão “segundo país mais pobre do mundo” não se refere necessariamente aos 195 países reconhecidos pelas Nações Unidas. Embora não tenham sido produzidas estatísticas de pobreza para literalmente todos os países do mundo, a cobertura é extensa – a classificação recente baseia-se em 115 países.
Figura 2: Países incluídos na classificação global de pobreza do Banco Mundial
Este mapa, que mostra os países e as economias cobertos pelo Banco Mundial, ilustra que as classificações globais de pobreza se baseiam em estimativas de pobreza disponíveis e não incluem todos os países do mundo. Dados da Plataforma de Pobreza e Desigualdade do Banco Mundial (PIP); mapa adaptado de Our World in Data (OWID).
Tabela 1: Os 10 países mais pobres do mundo segundo as estimativas do Banco Mundial
Esta tabela classifica os países de acordo com a percentagem da população que vive abaixo do limiar de pobreza internacional do Banco Mundial de 3 USD por dia. Mostra também o ano dos dados do inquérito utilizado para gerar cada estimativa. Dados da PIP do Banco Mundial; cálculos processados pelo OWID.
Embora todos os valores sejam projectados para 2025, os dados em consideração foram colectados em anos diferentes, o que limita a sua comparabilidade. Cada um destes períodos foi caracterizado por condições económicas e sociais distintas que influenciaram directamente os níveis de pobreza observados.
Em 2020, os impactos mais severos da pandemia de COVID-19 foram evidentes; em 2021, a recuperação foi desigual entre os países; e em 2022, o contexto pós-pandémico expôs economias estruturalmente frágeis, como a de Moçambique, a choques externos adicionais – notavelmente os efeitos da guerra na Ucrânia, que levaram a aumentos significativos nos preços globais dos alimentos e da energia.
O Banco Mundial procura harmonizar estas diferenças através de projecções baseadas em diferentes modelos; no entanto, as condições específicas de cada ano de recolha de dados moldam inevitavelmente os resultados. Como tal, é necessária cautela ao fazer comparações entre países.
Porque é que as estimativas de pobreza diferem? Limitações da comparação internacional da pobreza
Embora o Banco Mundial siga critérios concebidos para a comparação global, o mesmo relatório apresenta uma estimativa alternativa baseada na linha de pobreza nacional (que é de 43,7 MZN por dia, calculada com base em estatísticas nacionais). Esta estimativa aponta para uma taxa de pobreza de cerca de 63%, que, não obstante, ainda é muito elevada. De qualquer das formas, o relatório da última avaliação nacional da pobreza publicado pelo Governo de Moçambique data de 2016 (baseado no Inquérito ao Orçamento Familiar (IOF) de 2014/15). Portanto, não existem estatísticas nacionais oficiais recentes para uma comparação directa.
Figura 3: Estimativas nacionais e internacionais da pobreza e do número de pobres em Moçambique
Esta figura compara as taxas de pobreza e o número de pessoas que vivem na pobreza, utilizando tanto a linha de pobreza internacional (à esquerda) como a linha de pobreza nacional de Moçambique (à direita), ilustrando como diferentes linhas de pobreza podem produzir estimativas diferentes. Ilustrações da Actualização Económica de Moçambique (2026).
Embora o ajustamento para dólares internacionais (PPC) torne possível a classificação observada, esta comparação tem suas limitações, especialmente porque para diferentes países, são utilizadas abordagens e fontes de dados diferentes. Estas incluem:
- Comparação entre consumo e rendimento: A estimativa de Moçambique baseia-se no consumo, enquanto outros países (como grande parte da América Latina e das Caraíbas) podem utilizar dados de rendimento. O consumo capta as despesas em um determinado período e pode estar mais sujeito a falhas de memória dos inquiridos, enquanto o rendimento capta os fluxos monetários, mas pode não reflectir necessariamente os padrões de vida reais alcançados. Estas diferenças podem limitar a comparabilidade entre países. No entanto, no contexto de Moçambique, de alta informalidade, a utilização do consumo como principal indicador de pobreza é metodologicamente justificada porque fornece uma medida mais estável e representativa do bem-estar do agregado familiar, embora tenha limitações na captação da desigualdade e das dinâmicas económicas a longo prazo.
Decisões estatísticas sobre como os dados dos inquéritos são processados: Em Moçambique, por exemplo, alguns agregados familiares podem não reportar o consumo ou reportar consumo nulo. Nestes casos, em vez de descartar as observações (o que reduziria o tamanho da amostra), as notas metodológicas do Banco Mundial indicam que o consumo destes agregados familiares é censurado ou imputado em 0,28 dólares internacionais. Tudo o resto igual, esta abordagem tende a sobrestimar ligeiramente a taxa de pobreza em comparação com a simples remoção dessas observações.
Interpretando a classificação de pobreza de Moçambique
Será Moçambique realmente o segundo país mais pobre do mundo? A análise da pobreza que resultou nesta estatística, altamente debatida, apresenta-se consideravelmente bem documentada e abre espaço para críticas. A metodologia utilizada segue o rigor científico necessário para a produção estatística.
No entanto, como é típico de qualquer abordagem científica, as decisões por detrás da produção da estatística de 81% têm limitações. Existe uma possibilidade real de que seja enviesada. Contudo, a informação disponível indica que, mesmo que a estimativa pontual seja enviesada, não seria implausível dadas as circunstâncias que assolam a economia de Moçambique.
Uma contestação técnica a estas estimativas por parte do Governo de Moçambique seria não só legítima, mas também saudável para o debate público. No entanto, tal contestação deve ser feita de forma comparável e transparente, disponibilizando ao público informações detalhadas sobre como as estimativas nacionais são construídas e priorizando a replicabilidade dos dados.
1 - Os dólares internacionais funcionam como uma “moeda internacional” ajustada que permite comparar o custo de vida entre países. Assim, para efeitos de comparação global de pobreza, todos os países são avaliados com base neste referencial padronizado de paridade de poder de compra, com base em preços de 2021.
É crucial esclarecer que 3 USD em PPC não equivalem a 3 USD à taxa de câmbio de mercado, ou 192 MZN. Em vez disso, 3 dólares internacionais seriam equivalentes a cerca de 148 MZN em 2021, utilizando o factor de conversão da PPC para alimentos e bebidas não alcoólicas, e representam o nível mínimo de consumo (ou rendimento) necessário para que uma pessoa obtenha as calorias diárias necessárias para subsistência biológica. Mais detalhes estão disponíveis no Programa de Comparação Internacional (ICP).